Eu. ...que amo... 
Só Eu tenho pena da Lua! Tanta pena, coitadinha, Quando tão branca, na rua A vejo chorar sozinha!… As rosas nas alamedas, E os lilases cor da neve Confidenciam de leve E lembram arfar de sedas
Só a triste, coitadinha… Tão triste na minha rua Lá anda a chorar sozinha …
Eu chego então à janela: E fico a olhar para a lua… E fico a chorar com ela! …
Florbela Espanca - Trocando olhares


Sonhos Ter um sonho, um sonho lindo, Noite branda de luar, Que se sonhasse a sorrir… Que se sonhasse a chorar…
Ter um sonho, que nos fosse A vida, a luz, o alento, Que a sonhar beijasse doce A nossa boca… um lamento…
Ser pra nós o guia, o norte, Na vida o único trilho; E depois ver vir a morte
Despedaçar esses laços!… …É pior que ter um filho Que nos morresse nos braços!
Florbela Espanca - Trocando olhares

Ao Vento O vento passa a rir, torna a passar, Em gargalhadas ásperas de demente; E esta minh’alma trágica e doente Não sabe se há-de rir, se há-de chorar!
Vento de voz tristonha, voz plangente, Vento que ris de mim, sempre a troçar, Vento que ris do mundo e do amar, A tua voz tortura toda a gente!…
Vale-te mais chorar, meu pobre amigo! Desabafa essa dor a sós comigo, E não rias assim!… Ó vento, chora!
Que eu bem conheço, amigo, esse fadário Do nosso peito ser como um Calvário, E a gente andar a rir pela vida fora!!…
Florbela Espanca - Livro de Mágoas
    
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amor...meu EU.

A Flor do Sonho A Flor do Sonho, alvíssima, divina, Miraculosamente abriu em mim, Como se uma magnólia de cetim Fosse florir num muro todo em ruína.
Pende em meu seio a haste branda e fina E não posso entender como é que, enfim, Essa tão rara flor abriu assim! … Milagre… fantasia… ou, talvez, sina…
Ó flor que em mim nasceste sem abrolhos, Que tem que sejam tristes os meus olhos Se eles são tristes pelo amor de ti?!…
Desde que em mim nasceste em noite calma, Voou ao longe a asa da minh’alma E nunca, nunca mais eu me entendi…
Florbela Espanca - A mensageira das violetas
Inconstância Procurei o amor, que me mentiu. Pedi à Vida mais do que ela dava; Eterna sonhadora edificava Meu castelo de luz que me caiu! Tanto clarão nas trevas refulgiu, E tanto beijo a boca me queimava! E era o sol que os longes deslumbrava Igual a tanto sol que me fugiu!
Passei a vida a amar e a esquecer… Atrás do sol dum dia outro a aquecer As brumas dos atalhos por onde ando…
E este amor que assim me vai fugindo É igual a outro amor que vai surgindo, Que há-de partir também… nem eu sei quando… Florbela Espanca - Livro Soror Saudade
Os teus olhos O céu azul, não era Dessa cor, antigamente; Era branco como um lírio, Ou como estrela cadente. Um dia, fez Deus uns olhos Tão azuis como esses teus, Que olharam admirados A taça branca dos céus.
Quando sentiu esse olhar: “Que doçura de primor!” Disse o céu, e ciumento, Tornou-se da mesma cor!
Florbela Espanca - Trocando Olhares
Tarde demais Quando chegaste enfim, para te ver Abriu-se a noite em mágico luar; E pra o som de teus passos conhecer Pôs-se o silêncio, em volta, a escutar… Chegaste enfim! Milagre de endoidar! Viu-se nessa hora o que não pode ser: Em plena noite, a noite iluminar; E as pedras do caminho florescer!
Beijando a areia d’oiro dos desertos Procura-te em vão! Braços abertos, Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!
E há cem anos que eu fui nova e linda!… E a minha boca morta grita ainda: “Por que chegaste tarde, Ó meu Amor?!…”
Florbela Espanca - Livro Soror Saudade
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A mulher Ó Mulher! Como és fraca e como és forte! Como sabes ser doce e desgraçada! Como sabes fingir quando em teu peito A tua alma se estorce amargurada!
Quantas morrem saudosa duma imagem. Adorada que amaram doidamente! Quantas e quantas almas endoidecem Enquanto a boca rir alegremente! Quanta paixão e amor às vezes têm Sem nunca o confessarem a ninguém Doce alma de dor e sofrimento! Paixão que faria a felicidade. Dum rei; amor de sonho e de saudade, Que se esvai e que foge num lamento! Florbela Espanca - Trocando olhares      
Tarde de música Só Schumann, meu Amor! Serenidade... Não assustes os sonhos... Ah!, não varras As quimeras... Amor, senão esbarras Na minha vaga imaterialidade... Liszt, agora, o brilhante; o piano arde... Beijos alados... ecos de fanfarras... Pétalas dos teus dedos feito garras... Como cai em pó de oiro o ar da tarde! Eu olhava para ti... “É lindo! Ideal!” Gemeram nossas vozes confundidas. - Havia rosas cor-de-rosa aos molhos – Falavas de Liszt e eu... da musical Harmonia das pálpebras descidas, Do ritmo dos teus cílios sobre os olhos... Florbela Espanca - Reliquiae      

Primavera É Primavera agora, meu Amor! O campo despe a veste de estamenha; Não há árvore nenhuma que não tenha O coração aberto, todo em flor!
Ah! Deixa-te vogar, calmo, ao sabor Da vida... não há bem que nos não venha Dum mal que o nosso orgulho em vão desdenha! Não há bem que não possa ser melhor! Também despi meu triste burel pardo, E agora cheiro a rosmaninho e a nardo E ando agora tonta, à tua espera... Pus rosas cor-de-rosa em meus cabelos... Parecem um rosal! Vem desprendê-los! Meu Amor, meu Amor, é Primavera!... Florbela Espanca - Reliquiae      
Navios Fantasmas O arabesco fantástico do fumo Do meu cigarro traça o que disseste, A azul, no ar, e o que me escreveste, E tudo o que sonhastes e eu presumo. Para a minha alma estática e sem rumo, A lembrança de tudo o que me deste Passa como o navio que perdestes, No arabesco fantástico do fumo...Lá vão! Lá vão! Sem velas e sem mastros, Têm o brilho rutilante de astros, Navios-fantasmas, perdem-se a distância! Vão-me buscar, sem mastros e sem velas, Noiva-menina, a doidas caravelas, Ao ignoto País da minha infância... Florbela Espanca - Reliquiae      
Maria Das Quimeras Maria das Quimeras me chamou Alguém.. Pelos castelos que eu ergui P’las flores d’oiro e azul que a sol teci Numa tela de sonho que estalou. Maria das Quimeras me ficou; Com elas na minh’alma adormeci. Mas, quando despertei, nem uma vi Que da minh’alma, Alguém, tudo levou! Maria das Quimeras, que fim deste Às flores d’oiro e azul que a sol bordaste, Aos sonhos tresloucados que fizeste? Pelo mundo, na vida, o que é que esperas?… Aonde estão os beijos que sonhaste, Maria das Quimeras, sem quimeras?… Florbela Espanca - Livro de Soror Saudade              amor...meu EU.             
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Quem Sabe?!… Eu sigo-te e tu foges. É este o meu destino: Beber o fel amargo em luminosa taça, Chorar amargamente um beijo teu, divino, E rir olhando o vulto altivo da desgraça!
Tu foges-me, e eu sigo o teu olhar bendito; Por mais que fujas sempre, um sonho há de alcançar-te Se um sonho pode andar por todo o infinito, De que serve fugir se um sonho há de encontrar-te?! Demais, nem eu talvez, perceba se o amor É este perseguir de raiva, de furor, Com que eu te sigo assim como os rafeiros leais. Ou se é então a fuga eterna, misteriosa, Com que me foges sempre, ó noite tenebrosa! …………………………………….. Por me fugires, sim, talvez me queiras mais! Florbela Espanca - Trocando olhares

 ?!
Se as tuas mãos divinas folhearem As páginas de luto uma por uma Deste meu livro humilde; se poisarem Esses teus claros olhos como espuma
Nos meus versos d’amor, se docemente Tua boca os beijar, lendo-os, um dia; Se o teu sorrir pairar suavemente Nessas palavras minhas d’agonia, Repara e vê! Sob essas mãos benditas, Sob esses olhos teus, sob essa boca, Hão de pairar carícias infinitas! Eu atirei minh’alma como um rito Às trevas desse livro, assim, ó louca! A noite atira sóis ao infinito!.. Florbela Espanca - Trocando olhares

Visões da Febre Doente. Sinto-me com febre e com delírio Enche-se o quarto de fantasmas Uma visão desenha-se ante mim Debruça-se de leve…
É uma mulher de sonho e suavidade E disse-me baixinho: “Eu me chamo Saudade, E venho para levar-te o coração doente! Não sofrerás mais; serás fria como o gelo; Neste mundo de infâmia o que é que importa sê-lo Nunca tu chorarás por tudo mais que vejas!” E abriu-me o meu seio; tirou-me o coração Despedaçado já sem uma palpitação, Beijou-me e disse “Adeus!” E eu: “Bendita sejas!…” Florbela Espanca - Trocando olhares


           
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Li um dia… Li um dia, não sei onde, Que em todos os namorados Uns amam muito , e os outros Contentam-se em ser amados. Fico a cismar pensativa Neste mistério encantado… Digo pra mim: de nós dois Quem ama e quem é amado?… Florbela Espanca - Trocando olhares 
Duas Quadras Não sei se tens reparado Quando passeia, o luar Pára sempre à tua porta E encosta-se a chorar: E eu que passo também Na minha mágoa a cismar Para junto dele, e ficamos Abraçados a chorar!!! Florbela Espanca - Trocando olhares 
Prince Charmant No lânguido esmaecer das amorosas Tardes que morrem voluptuosamente Procurei-O no meio de toda a gente. Procurei-O em horas silenciosas Das noites da minha alma tenebrosas! Boca sangrando beijos, flor que sente… Olhos postos num sonho, humildemente… Mãos cheias de violetas e de rosas… E nunca O encontrei!… Prince Charmant Como audaz cavaleiro em velhas lendas Virá, talvez, nas névoas da manhã! Ah! Toda a nossa vida anda a quimera Tecendo em frágeis dedos frágeis rendas… - Nunca se encontra Aquele que se espera!… Florbela Espanca - Livro de Soror Saudade 
Crucificada Amiga… noiva… irmã… o que quiseres! Por ti, todos os céus terão estrelas, Por teu amor, mendiga, hei de merecê-las, Ao beijar a esmola que me deres. Podes amar até outras mulheres! - Hei de compor, sonhar palavras belas, Lindos versos de dor só para elas, Para em lânguidas noites lhes dizeres! Crucificada em mim, sobre os meus braços, Hei de pousar a boca nos teus passos Pra não serem pisados por ninguém. E depois… Ah, depois de dores tamanhas, Nascerás outra vez de outras entranhas, Nascerás outra vez de uma outra mãe! Florbela Espanca - A mensageira das violetas 
Balada Amei-te muito, e eu creio que me quiseste Também por um instante nesse dia Em que tão docemente me disseste Que amavas ‘ma mulher que o não sabia. Amei-te muito, muito!Tão risonho Aquele dia foi, aquela tarde!… E morreu como morre todo o sonho Deixando atrás de si só a saudade! … E na taça do amor, a ambrosia Da quimera bebi aquele dia A tragos bons, profundos, a cantar… O meu sonho morreu… Que desgraçada! ……………………………… E como o rei de Thule da balada Deitei também a minha taça ao mar … Florbela Espanca - Trocando olhares 

Escuta… Escuta, amor, escuta a voz que ao teu ouvido Te canta uma canção na rua em que morei, Essa soturna voz há de contar-te, amigo Por essa rua minha os sonhos que sonhei! Fala d’amor a voz em tom enternecido, Escuta-a com bondade. O muito que te amei Anda pairando aí em sonho comovido A envolver-te em oiro!… Assim s’envolve um rei! Num nimbo de saudade e doce como a asa Recorta-se no céu a minha humilde casa Onde ficou minh’alma assim como penada A arrastar grilhões como um fantasma triste. É dela a voz que fala, é dela a voz que existe Na rua em que morei… Anda crucificada! Florbela Espanca - Trocando olhares 
           
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As minhas ilusões Hora sagrada dum entardecer De Outono, à beira mar, cor de safira, Soa no ar uma invisível lira... O sol é um doente a enlanguescer... A vaga estende os braços a suster, Numa dor de revolta cheia de ira, A doirada cabeça que delira Num último suspiro, a estremecer!
O sol morreu... e veste luto o mar... E eu vejo a urna de oiro, a balouçar, À flor das ondas, num lençol de espuma.
As minhas ilusões, doce tesoiro, Também as vi levar em urnas de oiro, No mar da Vida, assim... uma por uma...
Florbela Espanca - Trocando olhares 

Frêmito do meu corpo... Frêmito do meu corpo a procurar-te, Febre das minhas mãos na tua pele Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel, Doido anseio dos meus braços a abraçar-te, Olhos buscando os teus por toda a parte, Sede de beijos, amargor de fel, Estonteante fome, áspera e cruel, Que nada existe que a mitigue e a farte!
E vejo-te tão longe! Sinto a tua alma Junto da minha, uma lagoa calma, A dizer-me, a cantar que me não amas...
E o meu coração que tu não sentes, Vai boiando ao acaso das correntes, Esquife negro sobre um mar de chamas...
Florbela Espanca - A mensageira das violetas 

Realidade Em ti o meu olhar fez-se alvorada E a minha voz fez-se gorgeio de ninho... E a minha rubra boca apaixonada Teve a frescura pálida do linho... Embriagou-me o teu beijo como um vinho Fulvo de Espanha, em taça cinzelada... E a minha cabeleireira desatada Pôs a teus pés a sombra dum caminho...
Minhas pálpebras são cor de verbena, Eu tenho os olhos garços, sou morena, E para te encontrar foi que eu nasci...
Tens sido vida fora o meu desejo E agora, que te falo, que te vejo, Não sei se te encontrei... se te perdi...
Florbela Espanca - Trocando olhares 

Noite de saudade A Noite vem poisando devagar Sobre a Terra, que inunda de amargura... E nem sequer a benção do luar A quis tornar divinamente pura... Ninguém vem atrás dela a acompanhar A sua dor que é cheia de tortura... E eu oiço a Noite imensa soluçar! E eu oiço soluçar a Noite escura!
Porque és assim tão escura, assim tão triste?! é que, talvez, ó Noite, em ti existe Uma saudade igual à que eu contenho!
Saudade que eu sei donde me vem... Talvez de ti, ó Noite! ... Ou de ninguém! ... Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!
Florbela Espanca - Trocando olhares            
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A um livro No silêncio de cinzas do meu Ser Agita-se uma sombra de cipreste, É uma sombra triste que ando a ler, No livro cheio de mágoa que me deste! Estranho livro aquele igual a mim! Cheira a mortos a rir e a cantar… É dum branco sinistro de jasmim. Que só me dá vontade de chorar! Parece que folheio toda a minh´alma! O livro que me deste, em mim salma As orações que choro e rio e canto! Poeta igual a mim, ai quem me dera Dizer que tu dizes! Quem soubera Velar a minha Dor desse teu manto! Florbela Espanca - Trocando olhares 
Desalento Às vezes oiço rir, é ’ma agonia Queima-me a alma como estranha brasa Tenho ódio à luz e tenho raiva ao dia Que me põe n’alma o fogo que m’abrasa! Tenho sede d’amar a humanidade… Eu ando embriagada… entontecida… O roxo de maus lábios é saudade Duns beijos que me deram n’outra vida! Ei não gosto do Sol, eu tenho medo Que me vejam nos olhos o segredo Que só saber chorar, de ser assim… Gosto da noite, imensa, triste, preta, Como esta estranha e doida borboleta Que eu sinto sempre a voltejar em mim! Florbela Espanca - Trocando Olhares 
Errante Meu coração da cor dos rubros vinhos Rasga a mortalha do meu peito brando E vai fugindo, e tonto vai andando A perder-se nas brumas dos caminhos. Meu coração o místico profeta, O paladino audaz da desventura, Que sonha ser um santo e um poeta, Vai procurar o Paço da Ventura… Meu coração não chega lá decerto… Não conhece o caminho nem o trilho, Nem há memória desse sítio incerto… Eu tecerei uns sonhos irreais… Como essa mãe que viu partir o filho, Como esse filho que não voltou mais! Florbela Espanca - Trocando Olhares 
Vulcões Tudo é frio e gelado. O gume dum punhal Não tem a lividez sinistra da montanha Quando a noite a inunda dum manto sem igual De neve branca e fria onde o luar se banha. No entanto que fogo, que lavas, a montanha Oculta no seu seio de lividez fatal! Tudo é quente lá dentro…e que paixão tamanha A fria neve envolve em seu vestido ideal! No gelo da indiferença ocultam-se as paixões Como no gelo frio do cume da montanha Se oculta a lava quente do seio dos vulcões… Assim quando eu te falo alegre, friamente, Sem um tremor de voz, mal sabes tu que estranha Paixão palpita e ruge em mim doida e fremente! Florbela Espanca - Trocando Olhares 
        

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Sonhos
Ter um sonho, um sonho lindo, Noite branda de luar, Que se sonhasse a sorrir... Que se sonhasse a chorar...
Ter um sonho, que nos fosse A vida, a luz, o alento, Que a sonhar beijasse doce A nossa boca... um lamento...
Ser pra nós o guia, o norte, Na vida o único trilho; E depois ver vir a morte
Despedaçar esses laços! ... É pior que ter um filho Que nos morresse nos braços!


Deixa dizer-te os lindos versos raros Que a minha boca tem pra te dizer! São talhados em mármore de Paros Cinzelados por mim pra te oferecer.(...)

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida Meus olhos andam cegos de te ver ! Não és sequer a razão do meu viver, Pois que tu és já toda a minha vida ! ...

... Contaste tanta coisa à noite calma, Que eu pensei que tu eras a minh’alma Que chorasse perdida em tua voz!…

... Eu queria ser o Mar de altivo porte Que ri e canta, a vastidão imensa! Eu queria ser a Pedra que não pensa, A pedra do caminho, rude e forte!...

... Hás-de contar-me nessa voz tão qu’rida A tua dor que julgas sem igual, E eu, pra te consolar, direi o mal Que à minha alma profunda fez a Vida. ...

… Quero voltar! Não sei por onde vim… Ah! Não ser mais que a sombra duma sombra Por entre tanta sombra igual a mim!

Ando perdida nestes sonhos verdes De ter nascido e não saber quem sou, Ando ceguinha a tatear paredes E nem ao menos sei quem me cegou! ...

... Ah! Toda eu sou sombras, sou espaços! Perco-me em mim na dor de ter vivido! E não tenho a doçura duns abraços Que me façam sorrir de ter nascido! ...

No silêncio de cinzas do meu Ser Agita-se uma sombra de cipreste, É uma sombra triste que ando a ler, No livro cheio de mágoa que me deste! ...

Meu coração da cor dos rubros vinhos Rasga a mortalha do meu peito brando E vai fugindo, e tonto vai andando A perder-se nas brumas dos caminhos. ...

... Assim quando eu te falo alegre, friamente, Sem um tremor de voz, mal sabes tu que estranha Paixão palpita e ruge em mim doida e fremente!

... Ter um sonho, que nos fosse A vida, a luz, o alento, Que a sonhar beijasse doce A nossa boca… um lamento…

Versos! Versos! Sei lá o que são versos… Pedaços de sorriso, branca espuma, Gargalhadas de luz. cantos dispersos, Ou pétalas que caem uma a uma. ...
     

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Não és sequer a razão de meu viver, pois que tu és já toda a minha vida.

Longe de ti são ermos os caminhos.

A vida é sempre a mesma para todos: rede de ilusões e desenganos. O quadro é único, a moldura é que é diferente.

Se penetrássemos o sentido da vida seríamos menos miseráveis.

Quem disser que pode amar alguém durante a vida inteira é porque mente.

É pensando nos homens que eu perdoo aos tigres as garras que dilaceram.

A ironia é a expressão mais perfeita do pensamento.

"...Quem nos deu asas para andar de rastos? Quem nos deu olhos para ver os astros Sem nos dar braços para os alcançar?!..."

Meu doce Amor tu beijas a minh’alma/Beijando nesta hora a minha boca!

"Quem me dera encontrar o verso puro, O verso altivo e forte, estranho e duro, Que dissesse a chorar isto que sinto!"

Escreve-me! Ainda que seja só Uma palavra, uma palavra apenas, Suave como o teu nome e casta Como um perfume casto d’açucenas!
Por aquela tão doce e tão breve ilusão Embora nunca mais Depois de que a vi desfeita Eu volte a ser quem fui Sem ironia aceita A minha gratidão

Há uma primavera em cada vida: é preciso cantá-la assim florida, pois se Deus nos deu voz, foi para cantar! E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada que seja a minha noite uma alvorada, que me saiba perder...para me encontrar....

Eu quero amar, amar perdidamente. Amar só por amar.

Eu não sou boa nem quero sê-lo, contento-me em desprezar quase todos, odiar alguns, estimar raros e amar um.

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...Aquela de saber vasto e profundo,Aos pés de quem a Terra anda curvada!

O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessoa; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade… sei lá de quê!

Canção grata
Por tudo o que me deste inquietação cuidado um pouco de ternura é certo mas tão pouca Noites de insónia Pelas ruas como louca Obrigada, obrigada
Por aquela tão doce e tão breve ilusão Embora nunca mais Depois de que a vi desfeita Eu volte a ser quem fui Sem ironia aceita A minha gratidão
Que bem que me faz agora o mal que me fizeste Mais forte e mais serena E livre e descuidada Sem ironia amor obrigada Obrigada por tudo o que me deste
Por aquela tão doce e tão breve ilusão Embora nunca mais Depois de que a vi desfeita Eu volte a ser quem fui Sem ironia aceita A minha gratidão

Eu tecerei uns sonhos irreais ...Como essa mãe que viu o filho partir; como esse filho que não voltou mais!

Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços... São os teus braços dentro dos meus braços, Via Láctea fechando o Infinito.

Quem me dera encontrar o verso puro, O verso altivo e forte, estranho e duro, Que dissesse a chorar isto que sinto!"

Quero voltar! Não sei por onde vim… Ah! Não ser mais que a sombra duma sombra Por entre tanta sombra igual a mim!

Sou uma céptica que crê em tudo, uma desiludida cheia de ilusões, uma revoltada que aceita, sorridente, todo o mal da vida, uma indiferente a transbordar de ternura.

Estou cansada, cada vez mais incompreendida e insatisfeita comigo, com a vida e com os outros. Diz-me, porque não nasci igual aos outros, sem dúvidas, sem desejos de impossível? E é isso que me traz sempre desvairada, incompatível com a vida que toda a gente vive.

Estou hoje num dos meus dias cinzentos, como diz nosso escritor; dia em que tudo é baço e pesado como a cinza, dia em que tudo tem a cor uniforme e nevoente dele, desse cinza em que eu às vezes sinto afundar o meu destino. Estou triste e vagamente parva, hoje, e, no entanto, estou na capital do Alentejo; aos meus ouvidos chega o ruído dos automóveis, o barulho cadenciado das patas dos cavalos de luxo, o pregão forte e sensual que é toda a alma de mulher do povo, e por cima disto tudo, a espalhar vida, luz, harmonia, sinto o sol, um sol de fogo, o sol do meu Alentejo sensual e forte como um árabe de vinte anos! Pois tudo me irrita! Que direito tem o sol para se rir hoje tanto? Donde vem o brilho que Deus pôs, como um dom do céu, nos olhos das costureirinhas que passam? Donde vem a névoa de mágoa que eu trago sempre nos meus?! Vê?... É o dia pesado, o dia em que eu sou infinitamente impertinente e má como uma velhota de oitenta anos. Eu odeio os felizes, sabes? Odeio-os do fundo da minha alma, tenho por eles o desprezo e o horror que se tem por um réptil que dorme sossegadamente. Eu não sou feliz mas nem ao menos sei dizer porquê. Nasci num berço de rendas rodeada de afectos, cresci despreocupada e feliz, rindo de tudo, contente da vida que não conhecia, e de repente, amiga, ao alvorecer dos meus 16 anos, compreendi muita coisa que até ali não tinha compreendido e parece-me que desde esse instante cá dentro se fez noite. Fizeram-se ruínas todas as minhas ilusões, e, como todos os corações verdadeiramente sinceros e meigos, despedaçou-se o meu para sempre. Podiam hoje sentar-me num trono, canonizar-me, dar-me tudo quanto na vida representa para todos a felicidade, que eu não me sentiria mais feliz do que sou hoje. Falta-me o meu castelo cheio de sol entrelaçado de madressilvas em flor; falta-me tudo o que eu tinha dantes e que eu nem sei dizer-te o que era... É a história da minha tristeza. História banal como quase toda a história dos tristes.
     
     

     

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