Florbela Espanca - LaLi



...ao meu amor lindo EU.

Doce Milagre

O dia chora. Agonizo
Com ele meu doce amor.
Nem a sombra dum sorriso,
Na Natureza diviso,
A dar-lhe vida e frescor!

A triste bruma, pesada,
Parece, detrás da serra
Fina renda, esfarrapada,
De Malines, desdobrada
Em mil voltas pela terra!

(O dia parece um réu.
Bate a chuva nas vidraças.)

As avezitas, coitadas,
'Squeceram hoje o cantar.
As flores pendem, fanadas
Nas finas hastes, cansadas
De tanto e tanto chorar...

O dia parece um réu.
Bate a chuva nas vidraças.
É tudo um imenso véu.
Nem a terra nem o céu
Se distingue. Mas tu passas...

E o sol doirado aparece.
O dia é uma gargalhada.
A Natureza endoidece
A cantar. Tudo enternece
A minh'alma angustiada!

Rasgam-se todos os véus
As flores abrem, sorrindo.
Pois se eu vejo os olhos teus
A fitarem-se nos meus,
Não há de tudo ser lindo?!

Se eles são prodigiosos
Esses teus olhos suaves!
Basta fitá-los, mimosos,
Em dias assim chuvosos,
Para ouvir cantar as aves!

A Natureza, zangada,
Não quer os dias risonhos?...
Tu passas... e uma alvorada
Pra mim abre perfumada,
Enche-me o peito de sonhos!

Florbela Espanca - "O Livro D'Ele"

onde estou...

 Cantinho da LaLi

 Coisas de LaLi

 Coisas Sensuais de LaLi

 LaLi...mulher...poema...

 Sou Lali



... por LaLi de EU.
[ envie esta mensagem ] [ ]


...ao meu amor lindo EU.

Felicidade

A felicidade na vida é já uma coisa tão restrita e quase convencional que tirar da vida uma parcela mínima desse luzente tesoiro, tão ambicionado e tão quimérico, é a maior das loucuras humanas.

Florbela Espanca


O Dom Milagroso de um Grande Amor

Na vida de toda a gente há braçados floridos dessas tolices sem importância. Só a raros eleitos é dado o milagroso dom de um grande amor. Eu teria muita pena que o destino não me trouxesse esse grande amor que foi o meu grande sonho pela vida fora. Devo agradecer ao destino o favor de ter ouvido a minha voz. Pôr finalmente, no meu caminho, a linda alma nova, ardente e carinhosa que é todo o meu ampa­ro, toda a minha riqueza, toda a minha felicidade neste mundo. A morte pode vir quando quiser: trago as mãos cheias de rosas e o coração em festa: posso partir contente.

Florbela Espanca, in "Correspondência (1930)





Cartas de Amor

Nem o perfume dos cravos,
Nem a cor das violetas,
Nem o brilho das estrelas,
Nem o sonhar dos poetas,

Pode igualar a beleza
Da primorosa flor,
Que abre na tua boca
O teu riso encantador.

Florbela Espanca Quadras

Sol Poente

Tardinha... "Ave-Maria, Mãe de Deus..."
E reza a voz dos sinos e das noras...
O sol que morre tem clarões d'auroras,
Águia que bate as asas pelo céu!

Horas que têm a cor dos olhos teus...
Horas evocadoras doutras horas...
Lembranças de fantásticos outroras,
De sonhos que não tenho e que eram meus!

Horas em que as saudades, p'las estradas,
Inclinam as cabeças mart'rizadas
E ficam pensativas... meditando...

Morrem verbenas silenciosamente...
E o rubro sol da tua boca ardente
Vai-me a pálida boca desfolhando...

Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"

Anseios

Meu doido coração aonde vais,
No teu imenso anseio de liberdade?
Toma cautela com a realidade;
Meu pobre coração olha cais!

Deixa-te estar quietinho! Não amais
A doce quietação da soledade?
Tuas lindas quimeras irreais
Não valem o prazer duma saudade!

Tu chamas ao meu seio, negra prisão!...
Ai, vê lá bem, ó doido coração,
Não te deslumbre o brilho do luar!

Não estendas tuas asas para o longe...
Deixa-te estar quietinho, triste monge,
Na paz da tua cela, a soluçar!...

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"



Da Minha Janela

Mar alto! Ondas quebradas e vencidas
Num soluçar aflito, murmurado...
Vôo de gaivotas, leve, imaculado,
Como neves nos píncaros nascidas!

Sol! Ave a tombar, asas já feridas,
Batendo ainda num arfar pausado...
Ó meu doce poente torturado
Rezo-te em mim, chorando, mãos erguidas!

Meu verso de Samain cheio de graça,
Inda não és clarão já és luar
Como um branco lilás que se desfaça!

Amor! Teu coração trago-o no peito...
Pulsa dentro de mim como este mar
Num beijo eterno, assim, nunca desfeito!...
 
Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"

onde estou...

 Cantinho da LaLi

 Coisas de LaLi

 Coisas Sensuais de LaLi

 LaLi...mulher...poema...

 Sou Lali

 



... por LaLi
[ envie esta mensagem ] [ ]


...sonetos inéditos...meu (a)Mar...

Velhinha e Moça

O tempo, mansamente, há-de espalhar
Flocos de neve sobre os meus cabelos,
Numa carícia deixará selos,
No meu corpo gentil, o seu sabor…

Ao meu sangue fremente, a palpitar,
Hão-de esfriá-lo sucessivos golos,
E aos meios seios graciosos hei-de vê-los
Mimados como lírios a fechar

Mas mesmo quando for assim velhinha
O teu amor fará um alvoroso
Na minh’alma, e alma e graça de menina

E até morrer, o meu olhar cansado,
Fitando o teu há-de julgar-se moço,
Num enlevo de eterno enamorado.

Florbela Espanca

Exilada

Quem pôs dentro de mim esta ânsia ardente
De quão é belo e puro e luminoso
- se eu tinha de viver, humanamente,
Prisioneira dum mundo tormentoso?

Quem me formou um coração fremente,
Torturado, exigente, cobiçoso
D'Altura, d'Infinito - se, impotente,
Veria limitar meu vôo ansioso?

Ah! Não sou deste mundo! O meu país
Não é este, onde o Sonho contradiz
A realidade! Eu sou uma exilada,

Que um duro engano fez nascer aqui!
Tirem-me da prisão onde caí!
Arranquem-me as algemas de forçada!!

Florbela Espanca

 Riso amargo

Num desafio temerário e forte,
Eu quero rir da Vida, altivamente,
Da Vida que é combate, luta ingente,
Nesta comédia dum viver sem norte.

Quero rir da desgraça e da má-sorte
Que nos fere e persegue tenazmente.
Rir do que é baixo e vil, amargamente,
Do que é soluço e dor… E até da morte!

De tudo rir! Que mais posso fazer?...
Se a podridão de charco jamais volta
À limpidez das fontes a correr…

Quero rir!... E o meu riso é um esgar,
Um grito de impotência e de revolta!
Rir! Quero Rir!!

… E apenas sei chorar!

Florbela Espanca 

onde estou...

 Cantinho da LaLi

 Coisas de LaLi

 Coisas Sensuais de LaLi

 LaLi...mulher...poema...

 Sou Lali



... por LaLi
[ envie esta mensagem ] [ ]



Rosas

Rosa! És a flor mais bela e mais gentil
Entre as flores que a Natureza encerra;
Bendito sejas tu, ó mês d'Abril
Que de rosas inundas toda a terra!

Brancas, vermelhas ou da cor sombria
Do desespero e do pesar mais fundo,
Sois símbolos d'amor e d'alegria
Vós sois a obra-prima deste mundo!

Ao ver-vos tão bonitas, tão mimosas
Esqueço a minha dor, minha saudade
Pra só vos contemplar, ó orgulhosas.

Eu abençoo então a Natureza,
E curvo-me ante vós com humildade
Ó rainhas da graça e da beleza!

Florbela Espanca

A minha tragédia

Tenho ódio à luz e raiva à claridade
Do sol, alegre, quente, na subida.
Parece que minh'alma é perseguida
Por um carrasco cheio de maldade!

Ó minha vã, inútil mocidade,
Trazes-me embriagada, entontecida!...
Duns beijos que me deste noutra vida,
Trago em meus lábios roxos, a saudade!...

Eu não gosto do sol, eu tenho medo
Que me leiam nos olhos o segredo
De não amar ninguém, de ser assim!

Gosto da Noite imensa, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim!...

Florbela Espanca

Amor que Morre

O nosso amor morreu... Quem o diria!
Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta.
Ceguinha de te ver, sem ver a conta
Do tempo que passava, que fugia!

Bem estava a sentir que ele morria...
E outro clarão, ao longe, já desponta!
Um engano que morre... e logo aponta
A luz doutra miragem fugidia...

Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
São precisos amores, pra morrer
E são precisos sonhos pra partir.

Eu bem sei, meu Amor, que era preciso
Fazer do amor que parte o claro riso
Doutro amor impossível que há de vir!

Florbela Espanca

 

onde estou...

 Cantinho da LaLi

 Coisas de LaLi

 Coisas Sensuais de LaLi

 LaLi...mulher...poema...

 Sou Lali



... por LaLi
[ envie esta mensagem ] [ ]


Biografia Sucinta

Fazer sonetos, não é uma tarefa simples. O soneto clássico é composto de versos decassílabos, com dois quartetos (quatro versos) e dois tercetos (três versos), em seqüência, com rimas que podem variar de posição. Um soneto é uma forma relativamente sintética, que, apesar disso, se bom, deve apresentar, completamente, um estado de alma ou uma mensagem. Não são muitos os que conseguem se expressar dessa maneira. A forma poética de Florbela Espanca, em sonetos, é a expressão de um gênio da poesia. Nos seus sonetos, Florbela, além da perfeição puramente técnica, consegue extravasar, completamente, tudo aquilo que lhe ia pelo coração, criando uma enorme identidade, entre a sua poesia e a sua alma. Lendo a poesia de Florbela, percebe-se, a mesma, algumas vezes um tanto amarga e cinzenta, outras vezes feita de desejos mal contidos. Pela sua poesia e pela sua própria vida, pode-se perguntar se, em lugar de ter vivido no Portugal do começo do século XX, tivesse Florbela vivido em tempos mais modernos, se o curso de sua vida não poderia ter sido um outro. Tem-se a impressão de que Florbela queria algo que o seu ambiente não lhe podia dar. Talvez procurasse algo que lhe estivesse, no tempo, um pouco além.

Durante sua vida, Florbela não teve um grande reconhecimento como poetisa . Tal reconhecimento só se deu devido às circunstâncias de sua morte, em 8 de dezembro de 1930, às vésperas da publicação de seu livro "Charneca em Flor". O fato de ter dado fim à sua vida, fez com que o público se interessasse pelo livro e pelo restante de sua obra.

Florbela d'Alma da Conceição Espanca nasceu em 8 de dezembro de 1894 em Vila Viçosa (Alentejo). Seu pai, João Maria Espanca era, na verdade, casado com outra mulher, que acabou sendo a madrinha de Florbela. O mesmo veio a acontecer com seu irmão Apeles, nascido em 10 de março de 1897, que Florbela veio a considerar como sua alma irmã e cuja morte, em 1927, abalou profundamente a poetisa, influindo, com certeza, no destino de Florbela. O primeiro poema de Florbela foi, ao que tudo indica,, A Vida e a Morte, em 1903. Em 1913, Florbela celebra o primeiro de seus três casamentos, em 1917 sofre um aborto e, em junho de 1919, por sua própria conta, publica o seu "Livro de Mágoas". Em seguida, em 1923, também por conta própria, publica o "Livro de Sóror Saudade". Antes disso, em 1921, é assinado o divórcio de Florbela que, dois meses depois, se casa pela segunda vez. Em 1925, após um novo aborto, divorcia-se novamente e, no mesmo ano, casa-se pela terceira vez. Em 1927, conforme mencionado, um acidente aéreo mata o irmão de Florbela, Apeles. Depois disso Florbela, com certeza, nunca mais foi a mesma. Assim sendo, após uma vida pessoalmente conturbada e emocionalmente, complicada, Florbela morre, no dia de seu aniversário, em 8 de dezembro de 1930, por suicídio, ou ingestão excessiva de remédios.

http://www.todas.com.br/florbela.htm

 

onde estou...

 Cantinho da LaLi

 Coisas de LaLi

 Coisas Sensuais de LaLi

 LaLi...mulher...poema...

 Sou Lali



... por LaLi
[ envie esta mensagem ] [ ]


 mar que amo...


Para quê?!

"Tudo é vaidade neste mundo vão ...
Tudo é tristeza, tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada
Vem logo a noite encher o coração!

Até o amor nos mente, essa canção
Que o nosso peito ri à gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam, pelo chão! ...

Beijos de amor! Para quê?! Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!

Só neles acredita quem é louca!
Beijos de amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta! ... "

Florbela Espanca - Livro de Mágoas


 
Noite de chuva

Chuva... Que gotas grossas!... Vem ouvir:
Uma... duas... mais outra que desceu...
É Viviana, é Melusina a rir,
São rosas brancas dum rosal do céu...

Os lilases deixaram-se dormir...
Nem um frémito... a terra emudeceu...
Amor! Vem ver estrelas a cair:
Uma... duas... mais outra que desceu...

Fala baixo, juntinho ao meu ouvido,
Que essa fala de amor seja um gemido,
Um murmúrio, um soluço, um ai desfeito...

Ah, deixa à noite o seu encanto triste!
E a mim... o teu amor que mal existe,
Chuva a cair na noite do meu peito!

Florbela Espanca - Reliquiae


 
A Doida

A noite passa, noivando.
Caem ondas de luar.
Lá passa a doida cantando
Que mais parece chorar!

Dizem que doi morte
D´alguém, que muito lhe quis,
Que endoideceu, triste sorte!
Que dor tão triste e tão forte!
Como um dido é infeliz!

Desde que ela endoideceu,
(Que triste vida, que mágoa!)
pobrezinha, olhando céu,
Chama o noivo que morreu
Com os olhos rasos d´água!

E a noite passa, noivando.
Passa noivando luar:
“Num suspiro doce e brando,
Podre doida vai cantando
Que esse teu canto, é chorar!”

Florbela Espanca - Trocando olhares


 
Silêncio!...


No fadário que é meu, neste penar,
Noite alta, noite escura, noite morta,
Sou o vento que geme e quer entrar,
Sou o vento que vai bater-te à porta...

Vivo longe de ti, mas que me importa?
Se eu já não vivo em mim! Ando a vaguear
Em roda à tua casa, a procurar
Beber-te a voz, apaixonada, absorta!

Estou junto de ti, e não me vês...
Quantas vezes no livro que tu lês
Meu olhar se pousou e se perdeu!

Trago-te como um filho nos meus braços!
E na tua casa... Escuta!... Uns leves passos...
Silêncio, meu Amor!... Abre! Sou eu!...

Florbela Espanca - Reliquiae

 

onde estou...

 Cantinho da LaLi

 Coisas de LaLi

 Coisas Sensuais de LaLi

 LaLi...mulher...poema...

 Sou Lali



... por LaLi
[ envie esta mensagem ] [ ]


 mar que amo...

 Tarde Demais...


Quando chegaste enfim, para te ver
Abriu-se a noite em mágico luar;
E pra o som de teus passos conhecer
Pôs-se o silêncio, em volta, a escutar…


Chegaste enfim! Milagre de endoidar!
Viu-se nessa hora o que não pode ser:
Em plena noite, a noite iluminar;
E as pedras do caminho florescer!


Beijando a areia d’oiro dos desertos
Procura-te em vão! Braços abertos,
Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!


E há cem anos que eu fui nova e linda!…
E a minha boca morta grita ainda:
“Por que chegaste tarde, Ó meu Amor?!…”


Florbela Espanca - Livro de Soror Saudade

 

 Sombra


De olheiras roxas, roxas, quase pretas,
De olhos límpidos, doces, languescentes,
Lagos em calma, pálidos, dormentes,
Onde se debruçassem violetas…


De mãos esguias, finas hastes quietas,
Que o vento não baloiça em noites quentes…
Nocturno de Chopin…riso dolentes…
Versos tristes em sonho de Poeta…


Beijo doce de aromas perturbantes…
Rosal bendito que dá rosas…Dantes
Esta era Eu e Eu era a Idolatrada!…


Oh! tanta cinza morta…o vento a leve!
Vou sendo agora em ti a sombra leve
De alguém que dobra a curva duma estrada…


Florbela Espanca - Livro de Soror Saudade

 

 Rústica


Ser a moça mais linda do povoado,
Pisar, sempre contente, o mesmo trilho,
Ver descer sobre o ninho aconchegado
A bênção do Senhor em cada filho.


Um vestido de chita bem lavado,
Cheirando a alfazema e a tomilho…
Com o luar matar a sede ao gado,
Dar às pombas o sol num grão de milho…


Ser pura como a água da cisterna,
Ter confiança numa vida eterna
Quando descer à “terra da verdade”…


Meu Deus, dai-me esta calma, esta pobreza!
Dou por elas meu trono de Princesa,
E todos os meus Reinos de Ansiedade.


Florbela Espanca - Charneca em Flor

 

 Rústica


Eu q’ria ser camponesa;
Ir esperar-te à tardinha
Quando é doce a Natureza
No silêncio da devesa,
E só voltar à noitinha…

Levar o cântaro à fonte
Deixá-lo devagarinho,
E correndo pela ponte
Que fica detrás do monte
Ir encontrar-te sozinho…

E depois quando o luar
Andasse pelas estradas,
D’olhos cheios do teu olhar
Eu voltaria a sonhar,
P’los caminhos de mãos dadas.

E depois se toda a gente
Perguntasse: “Que encarnada,
Rapariga! Estás doente?”
Eu diria: “É do poente,
Que assim me fez encarnada!”

E fitando ao longe a ponte,
Com meu olhar cheio do teu,
Diria a sorrir pro monte:
“O cant’ro ficou na fonte
Mas os beijos trouxe-os eu…


Florbela Espanca - Trocando olhares

  

onde estou...

 Cantinho da LaLi

 Coisas de LaLi

 Coisas Sensuais de LaLi

 LaLi...mulher...poema...

 Sou Lali



... por LaLi
[ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
 

Sonhos

Ter um sonho, um sonho lindo,
Noite branda de luar,
Que se sonhasse a sorrir...
Que se sonhasse a chorar...

Ter um sonho, que nos fosse
A vida, a luz, o alento,
Que a sonhar beijasse doce
A nossa boca... um lamento...

Ser pra nós o guia, o norte,
Na vida o único trilho;
E depois ver vir a morte

Despedaçar esses laços! ...
É pior que ter um filho
Que nos morresse nos braços!

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.(...)

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver !
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida ! ...

...
Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh’alma
Que chorasse perdida em tua voz!…

...
Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!...

...
Hás-de contar-me nessa voz tão qu’rida
A tua dor que julgas sem igual,
E eu, pra te consolar, direi o mal
Que à minha alma profunda fez a Vida. ...


Quero voltar! Não sei por onde vim…
Ah! Não ser mais que a sombra duma sombra
Por entre tanta sombra igual a mim!

Ando perdida nestes sonhos verdes
De ter nascido e não saber quem sou,
Ando ceguinha a tatear paredes
E nem ao menos sei quem me cegou! ...

...
Ah! Toda eu sou sombras, sou espaços!
Perco-me em mim na dor de ter vivido!
E não tenho a doçura duns abraços
Que me façam sorrir de ter nascido! ...

No silêncio de cinzas do meu Ser
Agita-se uma sombra de cipreste,
É uma sombra triste que ando a ler,
No livro cheio de mágoa que me deste! ...

Meu coração da cor dos rubros vinhos
Rasga a mortalha do meu peito brando
E vai fugindo, e tonto vai andando
A perder-se nas brumas dos caminhos. ...

...
Assim quando eu te falo alegre, friamente,
Sem um tremor de voz, mal sabes tu que estranha
Paixão palpita e ruge em mim doida e fremente!

...
Ter um sonho, que nos fosse
A vida, a luz, o alento,
Que a sonhar beijasse doce
A nossa boca… um lamento…

Versos! Versos! Sei lá o que são versos…
Pedaços de sorriso, branca espuma,
Gargalhadas de luz. cantos dispersos,
Ou pétalas que caem uma a uma. ...

...onde estou

 ...Sou LaLi
 Cantinho da LaLi
 Coisas de LaLi
 Coisas Sensuais de LaLi
 LaLi...mulher...poema...

Histórico

Não és sequer a razão de meu viver, pois que tu és já toda a minha vida.

Longe de ti são ermos os caminhos.

A vida é sempre a mesma para todos: rede de ilusões e desenganos. O quadro é
único, a moldura é que é diferente.

Se penetrássemos o sentido da vida seríamos menos miseráveis.

 

Quem disser que pode amar alguém durante a vida inteira é porque mente.

 

É pensando nos homens que eu perdoo aos tigres as garras que dilaceram.

 

A ironia é a expressão mais perfeita do pensamento.

"...Quem nos deu asas para andar de rastos?
Quem nos deu olhos para ver os astros
Sem nos dar braços para os alcançar?!..."

Meu doce Amor tu beijas a minh’alma/Beijando nesta hora a minha boca!

"Quem me dera encontrar o verso puro, O verso altivo e forte, estranho e duro, Que dissesse a chorar isto que sinto!"

Escreve-me! Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto d’açucenas!


 
Por aquela tão doce
e tão breve ilusão
Embora nunca mais
Depois de que a vi desfeita
Eu volte a ser quem fui
Sem ironia aceita
A minha gratidão

Há uma primavera em cada vida: é preciso cantá-la assim florida, pois se Deus nos deu
voz, foi para cantar! E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada que seja a minha
noite uma alvorada, que me saiba perder...para me encontrar....

Eu quero amar, amar perdidamente. Amar só por amar.

 

Eu não sou boa nem quero sê-lo, contento-me em desprezar quase todos, odiar alguns, estimar raros e amar um.

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...Aquela de saber vasto e profundo,Aos pés de quem a Terra anda curvada!

O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito,
uma angústia constante que eu nem mesma compreendo, pois estou longe de ser uma
pessoa; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma
alma que não se sente bem onde está, que tem saudade… sei lá de quê!

Canção grata

Por tudo o que me deste
inquietação cuidado
um pouco de ternura
é certo mas tão pouca
Noites de insónia
Pelas ruas como louca
Obrigada, obrigada

Por aquela tão doce
e tão breve ilusão
Embora nunca mais
Depois de que a vi desfeita
Eu volte a ser quem fui
Sem ironia aceita
A minha gratidão

Que bem que me faz agora
o mal que me fizeste
Mais forte e mais serena
E livre e descuidada
Sem ironia amor obrigada
Obrigada por tudo o que me deste

Por aquela tão doce
e tão breve ilusão
Embora nunca mais
Depois de que a vi desfeita
Eu volte a ser quem fui
Sem ironia aceita
A minha gratidão

Eu tecerei uns sonhos irreais ...Como essa mãe que viu o filho partir; como esse filho que não voltou mais!


Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços...
São os teus braços dentro dos meus braços, Via Láctea fechando o Infinito.

Quem me dera encontrar o verso puro, O verso altivo e forte, estranho e duro, Que dissesse a chorar isto que sinto!"

Quero voltar! Não sei por onde vim…
Ah! Não ser mais que a sombra duma sombra
Por entre tanta sombra igual a mim!

Sou uma céptica que crê em tudo, uma desiludida cheia de ilusões, uma revoltada que aceita, sorridente, todo o mal da vida, uma indiferente a transbordar de ternura.


Estou cansada, cada vez mais incompreendida e insatisfeita comigo, com a vida e com os outros. Diz-me, porque não nasci igual aos outros, sem dúvidas, sem desejos de impossível? E é isso que me traz sempre desvairada, incompatível com a vida que toda a gente vive.

Estou hoje num dos meus dias cinzentos, como diz nosso escritor; dia em que tudo é baço e pesado como a cinza, dia em que tudo tem a cor uniforme e nevoente dele, desse cinza em que eu às vezes sinto afundar o meu destino. Estou triste e vagamente parva, hoje, e, no entanto, estou na capital do Alentejo; aos meus ouvidos chega o ruído dos automóveis, o barulho cadenciado das patas dos cavalos de luxo, o pregão forte e sensual que é toda a alma de mulher do povo, e por cima disto tudo, a espalhar vida, luz, harmonia, sinto o sol, um sol de fogo, o sol do meu Alentejo sensual e forte como um árabe de vinte anos! Pois tudo me irrita! Que direito tem o sol para se rir hoje tanto? Donde vem o brilho que Deus pôs, como um dom do céu, nos olhos das costureirinhas que passam? Donde vem a névoa de mágoa que eu trago sempre nos meus?! Vê?... É o dia pesado, o dia em que eu sou infinitamente impertinente e má como uma velhota de oitenta anos.
Eu odeio os felizes, sabes? Odeio-os do fundo da minha alma, tenho por eles o desprezo e o horror que se tem por um réptil que dorme sossegadamente. Eu não sou feliz mas nem ao menos sei dizer porquê. Nasci num berço de rendas rodeada de afectos, cresci despreocupada e feliz, rindo de tudo, contente da vida que não conhecia, e de repente, amiga, ao alvorecer dos meus 16 anos, compreendi muita coisa que até ali não tinha compreendido e parece-me que desde esse instante cá dentro se fez noite.
Fizeram-se ruínas todas as minhas ilusões, e, como todos os corações verdadeiramente sinceros e meigos, despedaçou-se o meu para sempre. Podiam hoje sentar-me num trono, canonizar-me, dar-me tudo quanto na vida representa para todos a felicidade, que eu não me sentiria mais feliz do que sou hoje. Falta-me o meu castelo cheio de sol entrelaçado de madressilvas em flor; falta-me tudo o que eu tinha dantes e que eu nem sei dizer-te o que era... É a história da minha tristeza. História banal como quase toda a história dos tristes.







eXTReMe Tracker



Gosto da noite imensa,
triste,preta,como esta estranha borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim!...

Trago no olhar visões extraordinárias,
De coisas que abracei de olhos fechados..."

Li um dia, não sei onde,
Que em todos os namorados
Uns amam muito, e os outros
Contentam-se em ser amados.

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada,
que seja minha noite uma alvorada,
que eu saiba me perder para me encontrar...

Os dias são outonos: choram...choram...
Há crisântemos roxos que descoram...
Há murmúrios dolentes de segredos...
Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!
E ele é, o meu amor, pelos espaços,
Fumo leve que foge entre os meus dedos!

Eu não sou boa nem quero sê-lo, contento-me
em desprezar quase todos, odiar alguns,
estimar raros e amar um.

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...

Sonhei que era a tua amante querida
...........................anelante
estava nos teus braços num instante,
fitando com amor os olhos teus

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho...
Como se os dois nascêssemos irmãos,
Aves, cantando, ao sol, no mesmo ninho...

Beija-mas bem!...Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos,
Os beijos que sonhei pra minha boca!...

Meu Amor! Meu Amante! Meu Amigo!
Colhe a hora que passa, hora divina,
bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo!

As tuas mãos tacteiam-me a tremer...
Meu corpo de âmbar, harmonioso e moço,
É como um jasmineiro em alvoroço,
Ébrio de Sol, de aroma, de prazer!

Tudo é tranqüilo e casto e sonhador...
Olhando esta paisagem que é uma tela
De Deus, eu penso então: Onde há pintor

Onde há artista de saber profundo,
Que possa imaginar coisa mais bela,
Mais delicada e linda neste Mundo?




É um não querer mais que bem querer

I


Gosto de ti apaixonadamente,
De ti que és a vitória, a salvação,
De ti que me trouxeste pela mão
Até ao brilho desta chama quente.

A tua linda voz de água corrente
Ensinou-me a cantar... e essa canção
Foi ritmo nos meus versos de paixão,
Foi graça no meu peito de descrente.

Bordão a amparar minha cegueira,
Da noite negra o mágico farol,
Cravos rubros a arder numa fogueira.

E eu, que era neste mundo uma vencida,
Ergo a cabeça ao alto, encaro o Sol!
— Águia real, apontas-me a subida!


II

Meu amor, meu Amado, vê... repara:
Pousa os teus lindos olhos de oiro em mim,
— Dos meus beijos de amor Deus fez-me avara
Para nunca os contares até ao fim.

Meus olhos têm tons de pedra rara
— É só para teu bem que os tenho assim —
E as minhas mãos são fontes de água clara
A cantar sobre a sede dum jardim.

Sou triste como a folha ao abandono
Num parque solitário, pelo Outono,
Sobre um lago onde vogam nenufares...

Deus fez-me atravessar o teu caminho...
— Que contas dás a Deus indo sozinho,
Passando junto a mim, sem me encontrares?


III

Frémito do meu corpo a procurar-te,
Febre das minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,
Doido anseio dos meus braços a abraçar-te,

Olhos buscando os teus por toda a parte,
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel,
Que nada existe que a mitigue e a farte!

E vejo-te tão longe! Sinto a tua alma
Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que me não amas...

E o meu coração que tu não sentes,
Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas


IV

És tu! És tu! Sempre vieste, enfim!
Oiço de novo o riso dos teus passos!
És tu que eu vejo a estender-me os braços
Que Deus criou pra me abraçar a mim!

Tudo é divino e santo visto assim...
Foram-se os desalentos, os cansaços...
O mundo não é mundo: é um jardim!
Um céu aberto: longes, os espaços!

Prende-me toda, Amor, prende-me bem!
Que vês tu em redor? Não há ninguém!
A Terra? — Um astro morto que flutua...

Tudo o que é chama a arder, tudo o que sente,
Tudo o que é vida e vibra eternamente
É tu seres meu, Amor, e eu ser tua!


V

Dize-me, Amor, como te sou querida,
Conta-me a glória do teu sonho eleito,
Aninha-me a sorrir junto ao teu peito,
Arranca-me dos pântanos da vida.

Embriagada numa estranha lida,
Trago nas mãos o coração desfeito.
Mostra-me a luz, ensina-me o preceito
Que me salve e levante redimida!

Nesta negra cisterna em que me afundo,
Sem quimeras, sem crenças, sem ternura,
Agonia sem fé dum moribundo,

Grito o teu nome, numa sede estranha,
Como se fosse, Amor, toda a frescura
Das cristalinas águas da montanha!


VI

Falo de ti às pedras das estradas,
E ao sol que é loiro como o teu olhar,
Falo ao rio, que desdobra a faiscar,
Vestidos de Princesas e de Fadas;

Falo às gaivotas de asas desdobradas,
Lembrando lenços brancos a acenar,
E aos mastros que apunhalam o luar
Na solidão das noites consteladas;

Digo os anseios, os sonhos, os desejos
De onde a tua alma, tonta de vitória,
Levanta ao céus a torre dos meus beijos!

E os meus gritos de amor, cruzando o espaço,
Sobre os brocados fúlgidos da glória,
São astros que me tombam do regaço!


VII


São mortos os que nunca acreditaram
Que esta vida é somente uma passagem,
Um atalho sombrio, uma paisagem
Onde os nossos sentidos se pousaram.

São mortos os que nunca alevantaram
De entre escombros e Torre de Menagem
Dos seus sonhos de orgulho e de coragem,
E os que não riram e os que não choraram.

Que Deus faça de mim, quando eu morrer,
Quando eu partir para o País da Luz,
A sombra calma de um entardecer,

Tombando, em doces pregas de mortalha,
Sobre o teu corpo heróico, posto em cruz,
Na solidão dum campo de batalha!


VIII

Abrir os olhos, procurar a luz,
De coração erguido no alto, em chama,
Que tudo neste mundo se reduz
A ver os astros cintilar na lama!

Amar o sol da glória e a voz da fama
Que em clamorosos gritos se traduz!
Com misericórdia, amar quem nos não ama,
E deixar que nos preguem numa cruz!

Sobre um sonho desfeito erguer a torre
Doutro sonho mais alto e, se esse morre,
Mais outro e outro ainda, toda a vida!

Que importa que nos vençam desenganos,
Se pudermos contar os nossos anos
Assim como degraus duma subida?


IX

Perdi os meu fantásticos castelos
Como névoa distante que se esfuma...
Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los:
Quebrei as minhas lanças uma a uma!

Perdi minhas galeras entre gelos
Que se afundaram sobre um mar de bruma...
— Tantos escolhos! Quem podia vê-los?
Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma!

Perdi a minha taça, o meu anel,
A minha cota de aço, o meu corcel,
Perdi meu elmo de oiro e pedrarias...

Sobem-me aos lábios súplicas estranhas...
Sobre o meu coração pesam montanhas...
Olho assombrada as minhas mãos vazias...


X

Eu queria mais altas as estrelas,
Mais largo o espaço, o Sol mais criador,
Mais refulgente a Lua, o mar maior,
Mais cavadas as ondas e mais belas;

Mais amplas, mais rasgadas as janelas
Das almas, mais rosais a abrir em flor,
Mais montanhas, mais asas de condor,
Mais sangue sobre a cruz das caravelas!

E abrir os braços e viver a vida:
— Quanto mais funda e lúgubre a descida,
Mais alta é a ladeira que não cansa!

E, acabada a tarefa... em paz, contente,
Um dia adormecer, serenamente,
Como dorme no berço uma criança!


<BGSOUND SRC="http://www.sonatainblue.com.br/sound/nana_caymmi_-_leva_minha_dor.mid">